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A imagem da cidade: Lisboa

por Manuel_AR, em 06.05.11


Av.Fontes Pereira de Melo
Projeto CRONO
 
 Há alguns anos fiz uma recensão, sobre o livro a Imagem da Cidade de Kevin Lynch, que continua a ter uma atualidade incontestável. Para Lynch, as cidades têm uma leitura que nos é dada por informações através de símbolos, cores, ruas, edifícios e outros elementos marcantes em que estão envolvidos todos os sentidos dos seus habitantes.
Apoiando-me em Lynch, escrevi na referida recensão  que  "Os bairros são as áreas citadinas relativamente grandes que o observador pode reter mentalmente. Possuem características  físicas que os identificam das outras áreas: o espaço, a forma, o tipo e a forma dos edifícios, as atividades, os habitantes. A disposição das janelas dos edifícios são indicados como identificação dos bairros mais importantes.". Alguns edifícios são portanto "elementos marcantes, isto é, pontos de referência considerados exteriores ao observador que são simples elementos físicos variáveis em tamanho. Qualquer ponto que se evidencie numa cidade  pode servir de indicação ou de orientação de caminho a seguir. Para que este pontos sejam referidos devem ter determinadas caraterísticas como a característica e a originalidade e com que  contrastam com o cenário de fundo que os individualiza dos restantes . No caso de Lisboa são exemplos edifícios como por exemplo a Caixa Geral dos Depósitos entre a Praça de Londres e Campo Pequeno, a cúpula do Centro Comercial Colombo entre muitos outros. Há também outro tipo de elementos marcantes tais como edifícios velhos ou em ruínas ou outros que possuam características na sua construção que os distinga dos restantes, quer pelo tamanho, cor, arquitetura, etc..  

Vem tudo a propósito de um artigo que li no Courrier Internacional de Abri de 2011, escrito por Rachel Dixon, denominado "Urban splash: arte pública em Lisboa",  que aborda a questão dos grafitis na cidade de Lisboa. Quem passear por algumas avenidas ou ruas da cidade pode deparar-se com alguns edifícios degradados que têm sido pintados por artistas da chamada arte de rua ou arte pública, conhecida também por street art.

A autora do artigo elogia este tipo de iniciativa que, segundo ela, "…é possível distinguir entre rabiscos sem sentido e belas obras de arte urbana. A Câmara de Lisboa começou a fazer essa distinção, integrando-a num processo de reabilitação urbana que combina (de forma geralmente consequentes) esforços de limpeza … disponibilizando edifícios abandonados a artistas, percebendo que a boa arte de rua pode ser um trunfo.".

Aos elogios da arte de rua aplicada aos edifícios abandonados pode contrapor-se que, a chamada "arte urbana serve para dar cobertura à negligência da herança lisboeta" segundo  a opinião que Jonh Chamberlain que também escreveu no Courier Internacional.

De certo modo pode concordar-se que o projeto Cronos foi produtor da transformação, diga-se disfarce, de edifícios degradados, em vez de uma estratégia urbana para  a sua recuperação. É uma nova forma de ilusionismo, o ilusionismo urbano criado através de pinturas mais ou menos expressionistas, a ilusão de edifícios recuperados. O expressionismo pode ser considerado por alguns como uma arte impulsiva e fortemente individual, que utiliza grandes manchas de cor, intensas e contrastantes, aplicadas livremente de   formas distorcidas e forma caricatural do desenho, no sentido de se obter maior expressividade, com contornos fortes e grosseiros que é o que podemos ver nas ditas paredes pintadas.
Sem desprimor para os autores daquelas pinturas, é como limpar a sala e colocar o lixo debaixo da carpete. Gastam-se dinheiros públicos para que se esconda o "lixo" que é também uma forma de esconder a negligência dos responsáveis pelo planeamento urbano. Não é a arte urbana, que ao esconder a degradação dos edifícios, vai deixar que os edifícios continuem a degradar-se até à ruína, passando,   pela pior das razões, a ser novos pontos marcantes na cidade de Lisboa.

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publicado às 16:42




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